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MAS QUE PRESA É ESTA?

CORDF - Longão Ecológico Manancial do Taquari

Por Ricardo Dayan Lins Freitas

 

Aquelas altas e magras árvores acordaram nesse dia não com os assovios melodiosos dos pássaros da região. Algo novo estava por fazê-las espreguiçar. Por volta das 8 horas e alguns poucos minutos da manhãzinha de domingo da cidade do Paranoá, aquelas árvores sentiram pulsar mais forte as suas raízes causado pelo amontoado de passadas curtas e compridas dos mais de 30 atletas, homens e mulheres que adentraram intrepidamente na pequena e pacata selva, ainda úmida, que caprichosamente estendera o seu extenso e belo tapete verde de lodo para os seus ousados visitantes.

Ousadia, porque o que vinha pela frente era coisa parecida com savana africana, embora nunca tive o afortunamento de pousar meus olhos sobre as tórridas terras da África. Os atletas tinham a missão de percorrer 19 quilômetros e 200 metros. Íamos ziguezagueando por entre as árvores, curva aqui, curva acolá, até escaparmos para mata adentro. Cerrado puro. Capim grosso e fino que açoitava nossas pernas despidas, uma seqüência de desníveis e buracos no chão que nos faziam corredores mais atentos a tudo, como passarinhos fugindo alertas de arapucas. Mas tudo aquilo nos contagiava, enchia nossos corações de orgulho, de alegrias. O prazer reinava em nossos espíritos de atletas e também em nossos rostos que já denunciavam mescla de suor e poeira.

De súbito, lá pelo quilômetro cinco, nossos pés pisaram em terra fofa. Minto. Terra molhada, quase feito que areia movediça, onde tínhamos que saltitar aqui e ali para fugir das poças de água. A bem da verdade aquilo era um brejo. E quando pensávamos ter escapado dele, entrávamos em seguida noutro. Tênis mais pesado agora. Pesada também estava nossa ansiedade que se misturava sempre a uma incontida alegria. Mais adiante, capim grosso, capim fino batendo freneticamente em nossas pernas.

Num lampejo me veio à mente uma vez mais o cenário da África. Como os leopardos correndo atrás da caça, éramos todos legião de gente correndo atrás de uma presa. Mas que presa é esta? Não havia presa alguma. Nem cobra avistei. Mas talvez alguma delas tenha avistado algum de nós, escondida ali numa moita qualquer do mato, a nos espiar, taciturna. Nem sequer um veado campeiro, que fosse filhote, não importaria. Mas talvez estivesse bem encolhidinho num canto qualquer daquela mata, distante, a nos espreitar, com um olhar respeitoso.

Lá pelas tantas do quilômetro oito tinha uma cerca no meio do caminho. No meio do caminho, acreditem, tinha uma cerca. Cerca de arame farpado. Razão para se diminuir o ritmo das passadas, andar e parar. Puxar um dos arames com a mão, abaixar, e se esquivar por entre dois deles. Do outro lado da cerca, uma longa subida de terra batida até chegar bem perto de nosso colega que estendia as mãos para nos oferecer água e repositor gelados. Bom para retomar fôlego. E íamos, assim, desbravando terras, às vezes terras cheias de pedrinhas, o que exigia mais de nossos músculos. Outras vezes, terras somente.

Quinze mil metros deixados pra trás. Respiração que ofega, corredor que sofrega. Reluta, persiste, nunca esmorece a emoção, vai pondo perna frente perna, encoraja fortes braçadas e deixa rastro de poeira que sobe e depois descansa, repetidamente, a cada passagem de atleta.

Espia! As mesmas árvores altas e magras continuam no mesmo lugar. O comprido e lodoso tapete também. E cada corredor, cada corredora vai ziguezagueando novamente por entre elas. É que estes velozes homens e mulheres querem alcançar a sua presa. Mas que presa é esta?

Metros findos. Fortes braçadas, pele do rosto que se contorce desenhando linhas de sofreguidão entrelaçadas com outras linhas de um explosivo contentamento.

Eles e elas venceram. E eis a presa consumida: os sacrificantes, porém saborosos, 19 quilômetros e 200 metros. E se se diz que há o dia da caça e outro do caçador, este dia foi por merecimento nosso. Deliciosamente nosso.