Calendário Amigável
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“DESAFIA-ME OU DEVORO-TE!” Por Ricardo Dayan Lins Freitas |
A primeira turma que iria correr os percursos de 5 e 10 quilômetros, acrescidos cada um deles do bônus-surpresa, partiu no ônibus para mais adiante, deixando névoa de poeira levantar. Fiquei eu, minha esposa e a moçada que iria percorrer os 16 km mais os 2,5 km. Reinava nas entranhas de minha mente aquela sensação de que o grande cerrado nos esperava, boquiaberto, e quase podia ouvir a sua voz rouca e majestosa. Algo como – com a licença de Machado de Assis – “Desafia-me ou devoro-te!”. Dada a largada. Aproximadamente 9h20min. O desafio uma vez mais corria ao nosso lado e saímos encorajados pelas nossas próprias forças, convicções, anseios. Nossos sonhos. Tira de terra vermelha que nascia de meus olhos, ia se encompridando, e se acabava no horizonte bem lá em cima como que esteira de pó nos convidando para adentrar no céu. Subidas, quase que somente subidas durante todo o trajeto. Quilômetro um, dois, três, todos deixados pra trás. Água gelada no quilometro quatro. Pequeno furo na tampa do copo e deixo o líquido desce
Retomei meu foco para a corrida e eis que jaziam 15 quilômetros. O sol amornava nossos corpos em meio à brisa friazinha daquela manhã formosa. Comecei a apressar meus passos, mas não antes de meu olhar ser surpreendido pelo tom rosáceo de uma tímida flor típica de cerrado. Lá na frente, o horizonte que nos desafiava a passar de sua linha. Que viria depois dele? Uma longa descida? Uma curva? Ou uma longa reta? “Desafia-me ou devoro-te!” Ao ver a placa de 16 km, sorri por dentro e calculei que restava o meu bônus de 2,5 km.Haveria de gastá-lo. E o fiz com mais afinco, com mais paixão, ajeitando as passadas com mais capricho, o olhar fixo para frente onde pude avistar dois corredores a uma distancia de uns 500 metros. Arrisquei acelerar os passos. Devia faltar cerca de 1 quilômetro e meio quando meu par de tênis batia num trecho de descida de chão duro, demasiadamente duro e esburacado e, quase ia me esquecendo, torto, o que me estimulou para desafiá-lo e foi que, ao som de uma música longínqua, cruzei a linha de chegada. Medalha que enlaça pescoço de corredor. Tê-la assim, tão formosa, ganha com sacrifício, é tê-la como quem ganha um filho. De tempo em tempo, os corredores, mulheres e homens, foram cruzando a linha de chegada. Todos, sem exceção, superaram o desafio.
Foi assim que nós, atletas amantes do atletismo, das corridas de rua (não me simpatizo com a palavra pedestrianismo) desafiamos e vencemos o cerradão de Formosa e, com a permissão do eterno Machado (este ano celebramos seu centenário), lancemos esta paráfrase por força deste belo acontecido: Cerrados, longões e assemelhados: desafiem-nos ou devoramo-te! |