Calendário Amigável
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COMRADES – A ULTRA-MARATONA Por Eduardo Paula Rodrigues |
Voltei da minha aventura de participar da COMRADES MARATHON - em caixa alta mesmo, por uma questão de respeito. Foi um desafio e tanto. Fui lá, corri, completei e, o melhor, no tempo em que me havia proposto: abaixo de 9h00’. Conclui os 89,3 km em 8h47’22”. Foi uma glória! Eu não tinha idéia do que seria correr tamanha distância. As dificuldades são grandes, a começar pelo desgaste da própria viagem, a adaptação ao fuso horário (5h00’ a menos), a alimentação, a distância do local da largada e o próprio percurso, que é muito difícil.
Este ano a delegação brasileira era composta de quarenta e nove corredores, dos quais cinco da Capital Federal. Era a maior delegação estrangeira. Desembarcamos em Durban, na África do Sul, na quarta-feira, por volta do meio-dia. Estávamos muito cansados e reservamos o resto do dia para apenas descansar - “tirar o avião do corpo”. Nosso grupo ficou hospedado em um hotel separado dos demais atletas brasileiros, à exceção de uma corredora de Campo Grande/MS, Ana Márcia, e de um corredor de Praia Grande/Santos, Ariovaldo. Na quinta-feira fizemos um trote de 50’ nos calçadões à beira do Oceano Índico e, à tarde, fomos visitar a feira da COMRADES, receber o kit e “entrar no clima da prova”. No dia seguinte seguimos de ônibus para a cidade de Pietermaritizburg, onde seria a largada, a fim de conhecer o museu da competição e o trajeto da corrida. O passeio é ótimo e o museu imperdível, mas o percurso é de assombrar. O reconhecimento foi feito quando do nosso retorno. O ônibus seguia lentamente, com o guia explicando todos os detalhes e chamando a nossa atenção para as dificuldades e os perigos que iríamos encontrar. A viagem, que durou mais de 2h00’, pareceu-nos interminável. Achei que jamais chegaríamos. A grande variação de nível também nos causou surpresa. Praticamente não há trechos planos – ou se está subindo ou descendo. E apesar de termos conhecimento de que a prova deste ano seria em down-hill, prevalecendo as descidas, tivemos a nítida impressão de que havia mais trechos em aclive. Mais um motivo de preocupação, sobretudo para os estreantes. A COMRADES foi idealizada por Vic Clapham, veterano da 1ª Guerra, para homenagear os companheiros mortos no grande conflito. Daí o nome, que significa “CAMARADAS”. A primeira edição ocorreu em 1921 e foi vencida por Bill Rowan, com o tempo de 8h59’. A competição acontece entre as cidades de Pietermaritizburg e Durban e o sentido se alterna a cada ano – nos anos pares começa em Durban e termina em Pietermaritizburg na província de Kwazulu Natal. Nos anos ímpares, o sentido é invertido. Com início às 5h30’, deve ser concluída em até 12h00’. As medalhas são diferenciadas em função da chegada dos atletas. Até o 10º lugar, para ambos os sexos, é concedida a medalha de ouro (de verdade). Ao 11º colocado e para aqueles que completam com o tempo de até 7h29’59”, é destinada a medalha de prata. Aos que concluem com o tempo entre 7h30’ e 8h59’59” é entregue a medalha Bill Rowan, de cobre na parte central com um anel externo de prata. Os atletas que finalizam com o tempo entre 9h00’ e 10h59’59” recebem medalha de cobre e àqueles que findam com o tempo compreendido entre 11h00’ e 11h59’59” é entregue a medalha Vic Clapham, de um material que não sei identificar. Completando acima de 12h00’, não há medalha nenhuma. Por este motivo, nos minutos que antecedem a marca limite estabelecida pela organização podemos presenciar cenas comoventes de corredores desesperados buscando suas últimas energias para concluir a prova no prazo determinado. Vale mencionar que durante o percurso existem três ou quatro pontos de corte ou eliminação de atletas que, teoricamente, ultrapassariam a marca fixada. Dia da prova Acordamos à 01h45’. O café da manhã foi servido a partir das 2h00’ e, às 3h00’, já estávamos no ônibus com destino a Pietermaritizburg. Chegamos por volta das 4h30’. Entregamos as mochilas e sacolas no guarda-volumes, fizemos uma oração em grupo e fomos procurar os setores de largada. Essa distribuição é feita em função do tempo de qualificação obtido por cada corredor em provas com distância igual ou superior a uma maratona. Às 5h00’ estávamos entrando nas baias indicadas. Ouvimos o hino nacional da África do Sul e, em seguida, a música tema do filme Carruagens de Fogo. É um momento muito bonito e de grande emoção. Pontualmente às 5h30’ o cantar de um galo e um tiro de canhão acionado pelo prefeito da cidade sinalizaram a largada. Aproximadamente doze mil corredores, cerca de dez mil homens e duas mil mulheres partiram para, provavelmente, o maior desafio de suas vidas. Tal como acontece em provas importantes e concorridas, a largada foi marcada pelo tradicional empurra-empurra, mas sem muita agressividade. E nem poderia – era a “Maratona dos Camaradas”. Lá estava eu, enrolado com a bandeira nacional, iniciando minha primeira ultra-maratona. Os termômetros de rua assinalavam 3º C. Muitos atletas estavam de agasalho, mas outros usavam apenas short e camiseta. Quanta coragem! A prova se inicia com uma elevação de 620 m acima do nível do mar atingindo, ainda nos primeiros 20 km a marca de 830 m de altitude, que representa o ápice do trajeto. Percebe-se nitidamente as variações de temperatura e na medida em que se corre sente-se mais frio. É um trecho considerado muito difícil. No início acompanhei o meu amigo Samuel Toledo com quem fiz a maioria dos treinos longos no Parque da Cidade. Ele largou na baia B, destinada aos atletas que haviam concluído uma maratona em até 3h20’. Eu na baia C, para quem fez maratonas com o tempo entre 3h20’ e 3h40’. Seguimos correndo até o 8º quilômetro sem qualquer referência de velocidade, pois não havia placa de sinalização. O fato é que no quilômetro 10 passamos com o tempo próximo de 1h00’ e no quilômetro 20, com 1h58’. Corremos juntos até o quilômetro 40. Na subida da Inchanga, um dos cinco pontos mais pesados, ele achou melhor diminuir o ritmo. Eu segui adiante. Passei pela metade da prova com o tempo de 4h22’, um tanto arriscado para quem pretende cruzar a linha de chegada abaixo das 9h00’. Mas pelo fato de ser a prova no sentido da descida, a minha expectativa era a de que as coisas melhorariam a partir do quilômetro 50. Ledo engano. Descidas sim, mas intercaladas com subidas dificílimas. Foi emocionante passar pelo 60º km, que havia sido meu limite durante a fase de preparação. Não demorou muito e vi a placa que alertava “21 km para o final. “Só falta uma meia maratona”, pensei comigo. No quilômetro 71 encontrei uma subida indigesta e não tive opção - andei pela primeira vez. Mas isso não é um fato negativo e nem preocupante. Na COMRADES é absolutamente normal caminhar em alguns trechos de inclinações acentuadas. É o que praticamente acontece com 100% dos participantes. Entretanto, essas interrupções prolongam a chegada do quilômetro seguinte. Depois do quilômetro 70 parei para fazer uma massagem expressa nas pernas com óleo de arnica. Não durou mais do que dois minutos. Aproveitei para também alongar a musculatura e voltei a correr. Caminhei novamente em alguns outros pontos: a 7 km do final, em uma subida curta, mas muito íngreme, e entre os quilômetros 85 e 86, nas duas últimas elevações. Daí para frente não existiram mais obstáculos. Tudo virou festa. A multidão apoiando, gritando. É de arrepiar! A bandeira nacional, que usei para me cobrir na largada, estava presa a minha cintura. Ao me aproximar do estádio eu a desamarrei. Segui correndo de braços abertos e levantados, com duas pontas presas nas mãos, fazendo aviãozinho, até cruzar a linha de chegada. No estádio outra multidão aguarda os corredores com aplausos e gritos de incentivo. É uma experiência única e de uma emoção indescritível. A COMRADES foi de fato um grande desafio. Vale muito a pena para quem pretende testar seus próprios limites. Entretanto deve-se ter presente que os treinos são fundamentais e tomam muito tempo. A família é bastante sacrificada porque são muitas horas longe do convívio. Cercar-se de bons profissionais é imprescindível para que se possa realizar uma boa prova sem por em risco a saúde. Um bom check-up médico é essencial antes do início da preparação. Aliás, o check-up é indispensável para todo e qualquer corredor e não apenas para aqueles que desejam participar de competições de longa distância. É importante que o atleta tenha, além de um cardiologista, também um ortopedista, para o caso de sofrer contusões. Um profissional da área de nutrição também é necessário. As dicas da minha nutricionista (Larissa da Nutri Ativa) foram primordiais tanto na fase de preparação como durante a prova e para uma boa recuperação. E, naturalmente, um treinador qualificado e experiente. Antes de viajar discuti com o meu técnico (Sidnei da Cross Trainer) as estratégias para a corrida. De início e até o quilômetro 50 manteria a média de 5’30”/5’40” por km. A partir de então reavaliaria meu estado e começaria uma nova corrida. Como não tive referência nos quilômetros iniciais, mantive-me em um ritmo que julguei confortável, fazendo alguns “pit stops” até o 30º km. Diante do frio intenso, da tensão normal pré-competição e da dificuldade do trajeto, qualquer aumento no ritmo poderia comprometer o restante da prova e o meu objetivo. O meu treinamento em si não foi extenuante. Não fiz muita rodagem e os longões eram realizados apenas aos domingos. Em compensação fiz muito o chamado “treinamento de qualidade”, que são os tiros de velocidade. Esses tiros foram mais rápidos do que aqueles que costumava fazer. Mas me serviu de lição. Se eu pudesse voltar no tempo teria dado maior ênfase aos treinos em rodovias, priorizando aquelas recheadas de desníveis. Quanto mais subidas e descidas melhor. Isso me fez falta. Avaliando a minha participação, considero que fiz uma boa prova. Apesar das caminhadas nas subidas e da parada para a massagem, consegui manter praticamente o mesmo ritmo do início ao fim. Aliás, a turma de Brasília fez bonito. Todos completaram, e bem, a ultra-maratona COMRADES, atendendo às expectativas de cada um. - Wilson Bomfim, que já havia feito a corrida no ano passado e que tem mais de 65 corridas longas (maratonas e ultra-maratonas) fez em 8h45’05"; - Samuel Toledo, que me convenceu participar dessa aventura, tem cerca de 10 maratonas e algumas ultras, fez com o tempo de 8h52’36”; - Margaret Cullura, corredora que parece frágil, mas que correu como gente grande e completou com o excelente tempo de 9h41’m04”; - Cleiber Lobo, grande companheiro nos treinos e em algumas maratonas que fizemos antes, tinha como compromisso completar bem a prova. Concluiu em 10h45’30”. Outra sugestão que dou para quem deseja participar da prova é atenção com a segurança em Durban. Apesar do provo sul-africano ser amável, simpático e adorar o nosso País - corri com uma camiseta com a bandeira do Brasil e em todo o percurso as pessoas gritavam palavras de incentivos por eu ser brasileiro - deve-se evitar sair nas ruas à noite. Os temperos das comidas são bastante carregados na pimenta e os molhos e feijões têm sempre o sabor adocicado. Os preços, no geral, são semelhantes ou inferiores aos nossos. No mais, é curtir o doce sabor da vitória. Eduardo Rodrigues |