Calendário Amigável
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UM DESAFIO NA MANTIQUEIRA Por Manoel Mendes |
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"BAD135 World CUP" - Copa do Mundo de Corridas de 135 milhas, é constituída por três provas em ambientes extremamente adversos:
1. Badwater Ultramarathon - Corrida no Deserto - Com início no Death Valley, Califórnia com temperaturas até 55ºC
O regulamento não permite carro de apoio, regra não seguida por alguns atletas, que correram sem o peso incômodo da bagagem. Então tivemos que correr com quase todo suprimento que utilizaríamos durante a corrida em uma mochila. A minha estava com quase 6 kg na hora da largada. Dividi mentalmente a prova em duas partes de 108 km cada; uso sempre esta tática. Isto ajuda muito mental e fisicamente. Procurei me poupar muito na primeira parte, porque sabia que a segunda seria muito mais difícil. 8 horas da manhã do dia 15, segunda-feira. Largamos para correr a ultramaratona mais difícil do planeta. Chovia muito e assim foi durante toda a Ultramaratona. Os 6 primeiros km foram feitos dentro de Águas da Prata, depois fomos encarar mais 211 km subindo e descendo ininterruptamente as íngremes montanhas da Serra da Mantiqueira. O PC-1 (Posto de Controle) ficou a 23 km da largada e estava exatamente no topo do famoso Pico do Gavião, super conhecido do pessoal da Asa-Delta, cheguei lá com 2h25. Depois descemos em direção a Andradas - MG, a 42 km, exatamente uma maratona - 5h12. Chão encharcado, muita lama, muita chuva, muita montanha, segui rumo ao PC-2 - 63 km Agora direto para o PC-3 em Crisólia, km 86. Quando cheguei o cronômetro marcava 12h11, calculei que estava muito atrasado - 2 horas atrás do previsto - mas não me abalei e segui em direção ao PC-4, 32 km à frente, na cidade de Inconfidentes - MG. A noite caiu e a chuva não deu trégua, coloquei a lanterna na cabeça e fui para a estrada, tentei correr mas ficou impossível, foi a parte onde teve mais lama, não conseguia enxergar além de dois passos. Então, por segurança, resolvi andar. Esses 32 km duraram 6h10. Neste trecho parei em uma lanchonete em Ouro Fino e comi um sanduiche gigante com muito bacon, hamburguer, maionese, ovo e Fanta-Uva. Na chegada no PC-4 o cronômetro marcava 16h21. Este PC era em um hotel ao lado de um posto de gasolina; quando subo a escadinha que dá acesso ao hotel dou de cara com o Tião Magu. Meu estado era lastimável, tremia de frio, encharcado e enlameado da cabeça aos pés. Tomei um banho bem quentinho e o Tião me massageou, troquei a roupa e a meia (doação do amigo Marcelo lá do Rio), não troquei o tênis porque não tinha outro. Fiquei lá por 2 agradáveis horas. Quando saí estava com 18h31 de prova, a primeira parte estava concluída. Com a musculatura boa e mentalmente forte, segui em frente, agora correndo, num ritmo de 10 km/h - já não precisava mais me poupar tanto, tinha cumprido razoavelmente o que me havia proposto. Com 45 minutos, mais ou menos 7 km, percebi que estava no caminho errado, não conseguia encontrar a saída do asfalto para a estrada de chão. Sem perceber, tinha pego o sentido errado, se continuasse iria parar em São Paulo. Tive que voltar tudo de novo; desanimado, voltei andando. Quando voltei ao PC-4 para consertar o erro, estava com 21h02.
Saímos juntos novamente, mas logo no início percebi que a rapaziada não estava bem, resolvi arriscar e o corpo respondeu de maneira positiva, então calculei que dava pra chegar com menos de 40hs. Serim apenas 60 km. Mas numa descida gigante, agravei uma torção no tornozelo que já não estava muito bom desde antes do PC-2 (63 km), onde o torci levemente devido a um escorregão. Mas mentalizei tão fortemente a linha de chegada e tudo que já tinha passado, que a dor não interferiu em nada, muito pelo contrário. Aliás, não abandono uma corrida por causa de dor, a dor tem que ser ignorada. Parar, só mesmo quando não consigo dar um passo adiante, quando o músculo trava, a gente cai e sai carregado. Bom, fiz esses últimos 60 km em um pouco mais de 8hs, foi onde me senti melhor dentro da prova. Quando restavam 7 km para a linha de chegada em Paraisópolis, colou em mim um dos carros da organização e os caras falaram que vinha um corredor voando baixo a apenas 10 minutos de onde eu estava e que iria me tomar a 5a. colocação. Resultado: corri esses 7 km prá 33 minutos, fui o único que cruzou a linha de chegada suando. Depois me falaram que era gozação, o cara que vinha atrás de mim, chegou três horas depois. Concluí com 38h34 na 5a. colocação. Porque a BR135 Ultra ganhou o título de a mais difícil ultramaratona do mundo? Porque é a única prova acima de 200 km em uma só etapa, onde se corre na lama com uma mochila nas costas subindo e descendo montanhas o percurso inteiro. As outras Ultras que têm distância acima de 200 km e que se corre com mochilas, são feitas em etapas de até 7 dias. . Fotos do Site Oficial do Evento
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