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NÃO ENCONTREI VAN GOGH

Por Moema Malheiros Pontes

 

Chegada com frio

Era a nossa segunda visita a Amsterdam e, sem a surpresa da primeira, encontramos uma cidade linda, colorida pelo outono, com suas casas centenárias e plácidos canais, cheia de gente alegre e sempre disposta a conversar. Uma cidade que convida a caminhar sem pressa e sem rumo por ruas e alamedas limpas e arborizadas, onde os pedestres têm prioridade – respeitados os trilhos do tram, o simpático bondinho que cruza a cidade por todos os lados. Mas o nosso negócio, pelo menos até a prova, era correr.

O hotel havia sido recomendado por amigos e era muito bem localizado, perto de tudo, a meio caminho da largada da prova e ao mesmo tempo fora da área turística central, que é muito barulhenta, cheia de lojinhas e arapucas para turistas. Além disso, o hotel fica ao lado da MuseunPlein e nós queríamos rever as obras de Van Gogh.

Estava frio, muito frio, mas a recepção no hotel Hestia foi calorosa – o Arnald (na verdade, o nome tinha algumas vogais a mais, nós o rebatizamos para facilitar...) sabia algumas palavras em português e a sua primeira providência foi nos mostrar o percurso da maratona em um mapa, indicando a distância para a largada e as opções de transporte.

Dois dias para relaxar antes da prova, devidamente planejados para visitar a feira de esportes (a primeira providência, claro, pegar o nosso kit de corrida), procurar pelos amigos que lá chegavam para correr e rever algumas atrações da cidade, incluindo os dois imperdíveis museus com obras de Van Gogh e Rembrandt (Les Burguoises certamente está em qualquer lista dos mais belos e impressivos quadros já pintados).

A dieta de carboidratos era facilmente seguida nos muitos bons restaurantes italianos, mas o frio pedia um “complemento alimentar” sob a forma de uma taça de um bom vinho – bem cheia, preferencialmente. Planejamos para o sábado ir ao museu, mas o firo, a necessidade de descansar e o vinho (medicinal...) nos levaram de volta para o hotel, e deixamos para ver o Van Gogh no retorno da prova ou na segunda-feira cedo. Mas posso jurar que tomei apenas uma taça no almoço, eu respeito muito os 42.195 metros!

Domingo, a maratona – e como todos corredores sabem, domingo de competição começa, no mínimo, na longa noite anterior, quando a adrenalina começa a se acumular e a gente ainda não está correndo para gastar! Mas a divertida companhia da Júlia, Rosana, Luciana, Eliseth e Elisa fez o tempo passar mais rápido – e certamente o garçom não vai esquecer aquele grupo de mulheres barulhentas, alegres e, certamente, meio malucas que viajaram 10 mil milhas para uma corrida...

Cadê o tram que estava aqui?

Problema no domingo! Diversas rotas de transporte urbano fechadas por causa do trajeto da maratona, pas de taxi (nada de táxi) e pequenos grupos de corredores de vários países desorientados correndo de um lado para outro procurando o bonde certo – e a sensação piora ao ver que estão correndo de e para todas as direções, portanto, todos estarão errados – menos o grupo que está certo e não sabe!

Finalmente o Rubinho conversou com o condutor de um bonde e então corremos todos na direção certa para pegar a linha 16, é tão fácil depois que se aprende! Estávamos preocupados com o horário, mas é claro que tudo funciona. Entramos no bonde lotado com a tradicional variedade de competidores, alguns já se preparando, se alongando, mas todos preparados para o frio. Os termômetros, por volta das nove da manhã, marcavam oito graus.

Chegando ao Estádio Olímpico, de onde sairia a maratona, a festa começava com os milhares de corredores conversando, rindo, se cumprimentando, fazendo perguntas sobre as expectativas de cada um, sobre a nossa origem e, comprovando que corredor é tudo igual, reclamando de alguma dorzinha de última hora, ou do frio, ou de um treino que faltou...

Me despedi do pessoal que ia fazer a meia ou os 5 Km, ouvi mais uma vez as recomendações do Rubinho (que ia para a meia) e segui para a largada, com o coração acelerando, “aquele” frio na boca do estômago e sem saber o que esperar de uma corrida com tanto frio. O Estádio Olímpico estava bem cheio, eu me via mesmo personagem daquela prova maravilhosa – procurava os amigos nas arquibancadas, mas sentia que todos ali estavam assistindo e apoiando a cada um de nós individualmente.

Dada a partida, outra surpresa: a calma e a gentileza de uma multidão que educadamente caminhava sem stress ou empurrões até passar no tapete de largada para disparar os relógios e somente então começar a correr.

Boa parte do percurso é dentro da cidade e estes trechos constituem um belo city tour e são muito agradáveis de correr, com bastante gente na rua, e apenas a parte que segue o rio Amsteel é um pouco monótona. Não vemos as multidões de Nova Iorque, mas havia bastante gente incentivando os corredores, gritando pelos amigos, cumprimentando os países identificados nas camisetas. Como a nossa tinha o nome do corredor, de vez em quando era possível ouvir um incentivo personalizado.

Corremos, a Júlia e eu, no mesmo passo até o quilômetro 30, mantendo um ritmo entre 5:15 e 5:20, buscando um tempo final de 03:45 – mas sempre com aquela esperança de maratonista de sobrar energia para aquele gás final e um tempo abaixo do realmente esperado - mesmo sabendo que no mundo real das maratonas, raramente a tal sobra aparece...

E lá vem o tal do quilômetro 30

No posto de abastecimento do Km 30 acabei me separando da Júlia, que corria muito bem a sua primeira maratona, e aproveitei a temperatura agradável para manter o ritmo, havia treinado muito para baixar meu tempo anterior, obtido em Santa Catarina, de 3:51:19. Nós havíamos passado juntas nos 21 com 1:58:18 e nos 30 com 2:38:31, mas a partir dos malfadados trinta o ritmo caiu para 5:40 por quilômetro, o que ainda era suficiente.

Na passagem do muro eu me sentia bem, mesmo precisando reduzir um pouco o ritmo, e foi a hora de lembrar agradecida ao esforço e aos conselhos do Laurent, do Éder, dos colegas mais experientes – sem falar de todos que me ajudaram nos treinos, nos longões, nas conversas. Me sentia confiante ao partir para os últimos 10, mas ainda não havia acabado a prova, e sempre pode acontecer alguma coisa!

Agora, um mês depois, confesso, houve momentos entre o 38 e o 40 que tudo que eu queria era uma boa desculpa para andar ou até mesmo para desistir... mas este é o grande apelo da maratona, superar o que parece ser nosso limite, assim forcei o passo buscando meu tempo e minha medalha, buscando motivação primeiro na passagem de corredores já medalhados (se ele conseguiu, eu também posso!), depois com a o samba de grupo de percussionistas brasileiros que saudavam a bandeira na minha camiseta e, finalmente, com o pórtico que indicava: falta um Km!

Ali já era possível avistar o Estádio Olímpico e ouvir a multidão saudando quem chegava. Era então o momento de relaxar a mente, melhorar a passada, respirar fundo caprichando na postura e no sorriso para entrar na pista e sair bem na foto da chegada! Medalha no peito, um sorriso que não cabia no rosto, uma alegria enorme (vocês sabem como é) e missão cumprida: 3:45:59.

Quando o Rubinho chegou da prova dele, gelado pelo frio da tarde, eu o esquentei de beijos, estava exausta mas realizada, havia baixada quase seis minutos no meu tempo! Mais tarde, tomando uma cerveja, relembrando a prova com o grupo, comecei a pensar qual seria a próxima!

Para chegar ao hotel atravessamos caminhando o gramado defronte ao museu de Van Gogh, mas era impossível sequer pensar em ficar mais uma ou duas horas de pé, decidimos que rever Os Girassóis seria um programa muito melhor para a manhã de segunda do que para a tarde do domingo da maratona!

Todos no grupo de amigos de Brasília completaram as suas provas, conseguiram seus resultados e suas medalhas. Mas o jantar da noite teve algumas baixas, teve gente que não conseguiu sair caminhando do hotel, mas eu não vou revelar os nomes, nem sob tortura!

Manhã de segunda-feira, depois de muita preguiça na cama, seguimos para a Estação Central para alguns dias viajando e, embarcando no trem para Bruxelas com o Rubinho, eu me lembrei que não havia encontrado o Van Gogh – vou ter que voltar a Amsterdam!