Calendário Amigável
| |||||||
IRONMAN 2007 Por Sidney Barbosa de Assis |
A segunda volta também se desenvolve sem problemas e nos últimos metros do percurso já é possível ouvir o locutor da prova e sua narrativa entusiasmada, e ver a aglomeração de pessoas na areia. A concentração começa a se voltar para a transição iminente e para a viagem que é a etapa seguinte. Fico de pé na areia, olho para o cronômetro: uma hora e dezessete minutos. Retiro os óculos, touca, roupa de neoprene e percorro os 200 metros até a tenda de troca em ritmo acelerado, sob os gritos de incentivo da platéia em volta. Deixo o material da natação e equipo-me para o ciclismo: “macaquinho”, meia, sapatilha, capacete e óculos. Mais uma corridinha até a bicicleta, depois até a linha de largada empurrando a bike e estou no marco zero dos 180 km. Uma transição um tanto demorada: sete minutos e meio entre a areia e o início do pedal.
O tempo nublado correspondia a uma condição climática relativamente estável, aparentemente sem o forte vento característico de Florianópolis. A média de velocidade se manteve por volta dos 31 km/h, e os quilômetros foram passando. No km 85, próximo ao final da primeira volta, lá estava a minha esposa, Mari, a gritar palavras de estímulo e vibração – simples e fantasticamente entusiasmante. Na segunda volta cairam alguns pingos de chuva, mas não chegou a chover de verdade. Últimos cinco quilômetros do ciclismo: média de 30,8 km/h e um desgaste físico que já começa a exigir um algo mais. Dou uma aliviada na força realizada pra tentar amenizar um pouco o impacto da transição que se aproxima. De volta à praia de Jurerê Internacional, sede da competição, a sensação é de alívio e de tensão ao mesmo tempo: alívio por estar terminando uma etapa difícil e suscetível a diversas variáveis com bom rendimento e com tudo em ordem. Tensão pela preocupação em saber como o corpo vai reagir na mudança para a corrida. Na linha de chegada o cronômetro marca 5 horas e 52 minutos, referente ao percurso do ciclismo. A chegada na transição é entusiasmante, e é uma transição rápida: entrego a bicicleta ao “staff”, corro para a tenda de troca, retiro o capacete e os óculos (a sapatilha havia ficado no pedal), coloco o tênis e o boné, tomo um gole d’água e em menos de dois minutos e meio passo pelo início da maratona. Os primeiros metros me entusiasmam: meus “sensores internos” me indicam que a capacidade de fazer força está “muito bem, obrigado”. No entanto, tudo nessa hora exige cautela e paciência, afinal, ainda falta muito chão até a chegada. O percurso da corrida é feito em uma volta de 21 km (mais ou menos ida e volta pelo mesmo caminho) e duas voltas iguais de 10,5 km. Grande parte pelas ruas da simpática Jurerê, mas não totalmente. Tem trechos de estradas e ruas inóspitas com grande sensação de distância e silêncio. Quilômetro oito e meio: chego à primeira e mais íngreme subida do percurso. A grande maioria dos competidores sobe andando. Mantenho o ritmo, a respiração e a confiança. O corpo reage bem a esse início e vou me sentindo cada vez mais à vontade. Décimo quilômetro: dou uma olhada no cronômetro. 49 minutos e 45 segundos. Um tempo bom para as circunstâncias. Mas sei que o mais difícil está por vir e que a tendência é essa média cair da metade pro final. De volta ao local da concentração, no quilômetro 21, tudo ainda está em ordem. A Mari vibrando e transmitindo energia. Inicio a primeira volta de 10,5 km. Por volta do quilômetro 28 nem tudo são flores. Uma indisposição estomacal, ligeiramente anunciada alguns quilômetros atrás, se acentua e alquebra um pouco meu ímpeto. Encontro novamente a Mari, que corre comigo alguns metros e me tira um pouco do estado de “quase hipnose”. Quilômetro 32. Faltam 10. Dou mais uma olhada no cronômetro. Tempo total de prova: 10 horas e 13 minutos. Tomo um gole de coca-cola e conecto a minha melhor energia.
A sensação, logicamente, é maravilhosa. Não por parar de correr, porque a dor muscular e a exaustão só vão parar de gritar uns 40 minutos depois... Mas por concluir um objetivo trabalhado e buscado tão intensamente. Participar de um Ironman é um investimento alto. Não apenas financeiramente, mas principalmente de esforço, tempo e capacidade de realização. O que acaba por criar uma inevitável alta expectativa. Não deve ser nada divertido concentrar tanta energia e ser vencido, por exemplo, por uma corrente da bicicleta quebrada, ou por um tombo num momento de descuido, ou por uma fadiga insuportável na corrida. É uma aposta muito alta, e a sensação de conquista é proporcional. Acho que fiz o meu melhor. O meu enfoque é de que provas como essa não devem ser mensuradas pelo tempo, nem pela classificação (à exceção dos profissionais, para quem a referência, naturalmente, é outra), muito embora essa seja a primeira pergunta da maioria das pessoas. O que vale é: primeiro, ter feito; segundo, ter feito com domínio, com propriedade, com valentia; e terceiro: é preciso se divertir com o negócio (não esquecer que, no final das contas, é apenas um jogo). Então valeu muito. Ao final, cabe lembrar ainda um desses ditos dos grandes navegadores desses mares sem fim: “Não fui eu que atravessei o oceano. Foi ele que me deixou atravessar”. Até a próxima. Brasília, Junho de 2007. Sidnei Barbosa de Assis. |