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IRONMAN 2007

Por Sidney Barbosa de Assis

 

Domingo, 27 de maio de 2007, seis e cinqüenta da manhã. Na areia da praia de Jurerê Internacional, em Florianópolis, alinham-se 1263 atletas de 37 países para a largada do IRONMAN BRASIL, etapa do Campeonato Mundial de Ironman, classificatória para a final do Havaí, em outubro. Frio, céu nublado, mar aparentemente calmo, quase liso. Não há muito mais a fazer. Tudo já foi pensado, checado, planejado e treinado incontáveis vezes. O locutor anuncia que falta um minuto pra largada. Penso em todo o treinamento feito, todas as dificuldades, todas as dúvidas e sinto-me enormemente grato por estar ali. Uma buzina soa, levanta-se a faixa de largada, alguns passos e estou mergulhado na água fria, plano horizontal, braçadas suaves, respiração perfeitamente encaixada no delicado momento, uma certa confusão de braços e pernas batendo por todos os lados, água espirrando... E a manhã nublada fica mais bonita por trás das originais lentes cor de laranja do meu óculos de natação.

Os 3,8 km de natação do Iron se desenvolvem num percurso em forma de “M”, feito da direita pra esquerda, constituindo-se, na verdade, em duas voltas (a primeira um pouco maior do que a segunda), entre as quais é necessário sair da água e passar por um ponto de controle na areia. Ao sair da água entre a primeira e a segunda volta o cronômetro marca 40 minutos – cinco a mais do que o mesmo referencial no ano anterior (estaria se prenunciando uma prova mais difícil?). Devido a uma falta de maior afinidade com a água e com a técnica da natação, ainda faço essa etapa com uma atitude moderada, sem fazer força, sem me preocupar com performance... É um aspecto a aperfeiçoar para as próximas vezes. Colabora para essa certa “negligência” o fato de que a natação é, sem dúvida, a etapa mais fácil do Iron, e a que menos impacto tem no contexto geral da prova.

A segunda volta também se desenvolve sem problemas e nos últimos metros do percurso já é possível ouvir o locutor da prova e sua narrativa entusiasmada, e ver a aglomeração de pessoas na areia. A concentração começa a se voltar para a transição iminente e para a viagem que é a etapa seguinte. Fico de pé na areia, olho para o cronômetro: uma hora e dezessete minutos. Retiro os óculos, touca, roupa de neoprene e percorro os 200 metros até a tenda de troca em ritmo acelerado, sob os gritos de incentivo da platéia em volta. Deixo o material da natação e equipo-me para o ciclismo: “macaquinho”, meia, sapatilha, capacete e óculos. Mais uma corridinha até a bicicleta, depois até a linha de largada empurrando a bike e estou no marco zero dos 180 km. Uma transição um tanto demorada: sete minutos e meio entre a areia e o início do pedal.

Este ano usei uma estratégia semelhante à de 2006: pedalar como se não houvesse nada mais depois dessa etapa. Ou seja, não economizar forças. Depois, na corrida, faz-se o possível (e às vezes o impossível...). É uma opção arriscada, mas cada um deve saber o que faz. O ciclismo é a hora de se acalmar, concentrar-se nas reações do corpo e cuidar muito da hidratação e da alimentação. Da correta reposição energética nessa etapa vai depender o sucesso da seguinte, mais do que da economia de músculos que se possa querer fazer. O percurso do ciclismo se realiza em duas voltas de 90 km – ida e volta em boa parte pelo mesmo caminho, sendo cada um das voltas de 45 km -, basicamente por estrada, com asfalto bom e com três subidas fortes em cada sentido.

O tempo nublado correspondia a uma condição climática relativamente estável, aparentemente sem o forte vento característico de Florianópolis. A média de velocidade se manteve por volta dos 31 km/h, e os quilômetros foram passando. No km 85, próximo ao final da primeira volta, lá estava a minha esposa, Mari, a gritar palavras de estímulo e vibração – simples e fantasticamente entusiasmante. Na segunda volta cairam alguns pingos de chuva, mas não chegou a chover de verdade. Últimos cinco quilômetros do ciclismo: média de 30,8 km/h e um desgaste físico que já começa a exigir um algo mais. Dou uma aliviada na força realizada pra tentar amenizar um pouco o impacto da transição que se aproxima. De volta à praia de Jurerê Internacional, sede da competição, a sensação é de alívio e de tensão ao mesmo tempo: alívio por estar terminando uma etapa difícil e suscetível a diversas variáveis com bom rendimento e com tudo em ordem. Tensão pela preocupação em saber como o corpo vai reagir na mudança para a corrida. Na linha de chegada o cronômetro marca 5 horas e 52 minutos, referente ao percurso do ciclismo.

A chegada na transição é entusiasmante, e é uma transição rápida: entrego a bicicleta ao “staff”, corro para a tenda de troca, retiro o capacete e os óculos (a sapatilha havia ficado no pedal), coloco o tênis e o boné, tomo um gole d’água e em menos de dois minutos e meio passo pelo início da maratona. Os primeiros metros me entusiasmam: meus “sensores internos” me indicam que a capacidade de fazer força está “muito bem, obrigado”. No entanto, tudo nessa hora exige cautela e paciência, afinal, ainda falta muito chão até a chegada.

O percurso da corrida é feito em uma volta de 21 km (mais ou menos ida e volta pelo mesmo caminho) e duas voltas iguais de 10,5 km. Grande parte pelas ruas da simpática Jurerê, mas não totalmente. Tem trechos de estradas e ruas inóspitas com grande sensação de distância e silêncio. Quilômetro oito e meio: chego à primeira e mais íngreme subida do percurso. A grande maioria dos competidores sobe andando. Mantenho o ritmo, a respiração e a confiança. O corpo reage bem a esse início e vou me sentindo cada vez mais à vontade. Décimo quilômetro: dou uma olhada no cronômetro. 49 minutos e 45 segundos. Um tempo bom para as circunstâncias. Mas sei que o mais difícil está por vir e que a tendência é essa média cair da metade pro final.

De volta ao local da concentração, no quilômetro 21, tudo ainda está em ordem. A Mari vibrando e transmitindo energia. Inicio a primeira volta de 10,5 km. Por volta do quilômetro 28 nem tudo são flores. Uma indisposição estomacal, ligeiramente anunciada alguns quilômetros atrás, se acentua e alquebra um pouco meu ímpeto. Encontro novamente a Mari, que corre comigo alguns metros e me tira um pouco do estado de “quase hipnose”. Quilômetro 32. Faltam 10. Dou mais uma olhada no cronômetro. Tempo total de prova: 10 horas e 13 minutos. Tomo um gole de coca-cola e conecto a minha melhor energia.

Essa é a hora. À medida que os últimos dez quilômetros vão sendo percorridos tudo se intensifica. A sensação é meio deslumbrante. Exaustão, muita dor muscular, uma grande euforia, um grande “barato” de sensações. Tudo vai se perdendo e se misturando num emaranhado difícil de descrever. Apesar da sensação extrema de esforço e cansaço, o ritmo se mantém, independente e indiferente às dores e desesperos internos. O autêntico e puro “espírito Ironman”, ao vivo, a cores e multifacetado! Passo pela placa do 42. Últimos duzentos metros. A Mari se junta a mim e passamos juntos por baixo do pórtico de chegada. 11 horas e 14 minutos no total. 3 horas e 50 minutos na maratona.

A sensação, logicamente, é maravilhosa. Não por parar de correr, porque a dor muscular e a exaustão só vão parar de gritar uns 40 minutos depois... Mas por concluir um objetivo trabalhado e buscado tão intensamente. Participar de um Ironman é um investimento alto. Não apenas financeiramente, mas principalmente de esforço, tempo e capacidade de realização. O que acaba por criar uma inevitável alta expectativa. Não deve ser nada divertido concentrar tanta energia e ser vencido, por exemplo, por uma corrente da bicicleta quebrada, ou por um tombo num momento de descuido, ou por uma fadiga insuportável na corrida. É uma aposta muito alta, e a sensação de conquista é proporcional.

Acho que fiz o meu melhor. O meu enfoque é de que provas como essa não devem ser mensuradas pelo tempo, nem pela classificação (à exceção dos profissionais, para quem a referência, naturalmente, é outra), muito embora essa seja a primeira pergunta da maioria das pessoas. O que vale é: primeiro, ter feito; segundo, ter feito com domínio, com propriedade, com valentia; e terceiro: é preciso se divertir com o negócio (não esquecer que, no final das contas, é apenas um jogo). Então valeu muito.

Ao final, cabe lembrar ainda um desses ditos dos grandes navegadores desses mares sem fim: “Não fui eu que atravessei o oceano. Foi ele que me deixou atravessar”.

Até a próxima.

Brasília, Junho de 2007.

Sidnei Barbosa de Assis.