Calendário Amigável |
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A MARATONA DE CHICAGO: HELL AND BACK!!! Por Sônia M. Farhat |
Você nunca sabe como as coisas vão estar naquele dia. Será que vai chover? Será que vai nevar? Minhas costas vão doer? Que roupa eu visto? Vou de short, de calça comprida? Vai fazer mais frio que no ano anterior? Que camisa eu uso, de manga curta, de manga comprida? E o que vou levar para comer? Vou levar PowerGel? Barrinha? Biscoitinho? Enfim: tudo gera uma pergunta, uma grande polêmica. E como vamos até a largada? De táxi? De trem? De ônibus? Mas alguém disse que daria para ir andando. São apenas uns 6 km entre o hotel e a largada. Tudo bem, dá para ir andando. Todas essas e mais uma centena de dúvidas ocorreram à nossa turma, quando estávamos para fazer a maratona de Chicago, 2006. Sei muito pouco sobre Chicago. Só sei que é uma cidade com vocação para uma maratona, nota 10. A cidade é linda, totalmente plana, com asfalto macio e bem feito. Clima frio e vento que passa de fraco para forte, de um minuto ao outro. Se a favor, muito bem. O povo é educado, elegante acolhedor e adora ver os corredores passarem. O dia: domingo, 22/10 É engraçado: embora a gente tenha mil questionamentos, as coisas vão se solucionando naturalmente, na seqüência. Fica claro que sob 2º C não dá para correr de short, nem de manga curta. Assim, além de uma camisa de manga curta, veste-se a outra de manga comprida por cima; é preciso colocar boné e protetor para as orelhas e pescoço, mais luvas e um agasalho para jogar fora. A dúvida é quantas camadas de agasalho a gente deve vestir. No fim, parecíamos mais um bando de esquiadores, indo para uma montanha ensolarada do que corredores de maratona. Quanto ao meio de transporte para chegar à largada, tentamos ir de metrô, mas estava muito cheio, saímos e encontramos um táxi que nos deixou bem perto. Entre o guarda-volumes e o banheiro, e a largada, aquela sensação de que v. está pisando sobre ovos, andando nas pontas dos pés, com um friozinho na barriga, além do frio de verdade, e uma vontade de gritar que nem sei. Vontade fazer xixi é constante. Ela não passa no frio. Muito pelo contrário. Disse “até já” às minhas amigas, Taís, Pitty e Carmem, e à minha treinadora, Eliana Reinert, e nos separamos para encontrar nossos lugares. Fui logo procurar minha “pacer” (marcadora de passos), que iria correr no ritmo de 13.09 minutos a milha. Uma velocidade que permitiria terminar a corrida em 5:45 horas, tempo razoável para uma corredora de 64 anos. Surpresa com os “pacers” Ponha surpresa nisso. Encontrei minha “pacer”, Betty, uma profissional de corrida, que com a perda da velocidade, se dedicou a ser marcadora de ritmo de corridas oficiais. Ali na largada, sob um frio imenso, fiquei sabendo que havia três pacers que faziam a corrida no mesmo espaço de tempo, mas de maneiras completamente diferentes. A Betty ia fazer: 4 minutos consecutivos de corrida e 1 minuto de caminhada bem lenta. A Amy ia correr dois minutos e caminhar 2 minutos. A terceira “pacer”, cujo nome não me lembro, ia fazer o percurso inteiro andando. A Betty foi logo me explicando que daria para eu fazer um pouco com cada maneira, e decidir qual a maneira que gostaria de correr. Pois foi o que eu fiz. Achei o ritmo da “pacer” que corria o tempo integral meio moroso demais. Gostei mais do ritmo de correr 4 minutos e caminhar 1. Nunca tinha feito isto numa corrida. Fiquei impressionada com o profissionalismo e a precisão da “pacer”. Ela era um verdadeiro relógio. Mudava da corrida para a caminhada quase sem olhar o relógio. Era absolutamente perfeita. Quando via que havia um posto de água ou Gatorade, ela acelerava o passo, e quando chegava naquela área melada e molhada, propícia a escorregões, ela caminhava lentamente e retomava o ritmo assim que passava o perigo. Foi assim o percurso inteiro. Fizemos a corrida num ritmo maravilhoso de 13.09 minutos a milha. O conforto e o frio O ritmo era muito confortável para mim. Tive certa dificuldade de me manter atrás da “pacer”, tanto assim, que, nas fotos saí sempre um ou dois passos à frente dela. O percurso era aquele que todo o maratonista pede a Deus, plano e liso, poucas curvas, paisagem linda, o asfalto perfeito, permitindo até que você corra de olhos vendados. O público maravilhoso, do começo ao fim, aplaudindo e incentivando sem parar. Houve momentos que eu me senti a própria passista de escola de samba. Uma bondade realmente do povo de Chicago: ir para as ruas numa temperatura em torno de 2º graus centígrados, com uma sensação térmica de 0 grau por causa do vento e do céu, por muitos momentos nublado. O sol parecia que queria sair de vez em quando, mas quase nunca saia de fato. Havia mais de meio milhão de pessoas na rua. Um show de público. A maratona é uma festa, e a cidade meio que abraça os maratonistas. O povo sorri, grita, aplaude, oferece comida, docinhos. As pessoas oferecem tudo de melhor para dizer que estão felizes por ver você ali, vencendo suas milhas. Mas o frio castiga. Para nós, brasileiros, dois graus é frio demais. A temperatura muito baixa, assim como a muito alta, exige muito do corpo. O bom mesmo é correr com a temperatura em torno de 7º graus!!! Pode acreditar. Nem motos, nem cachorros, nem... Outra coisa notável em Chicago é que além do público, o terreno plano, só tem gente correndo. Não tem motos, nem bicicletas te acompanhando, e que muitas vezes, como acontece aqui no Brasil, quase te atropelam. Também lá é proibido correr com cachorros ou carrinhos de criança. São medidas que visam à segurança e que de fato, deixam o corredor mais relaxado. Administração das dificuldades Quanto à minha corrida, posso dizer que fui bem. Consegui seguir a “pacer” até o Km 40. Daí alguém puxou conversa comigo e eu não resisto a um papo. Sem perceber, fui diminuindo o passo. Não sei se em conseqüência da baixa velocidade, comecei a sentir uma tremedeira louca, batia o queixo, meus braços e pernas tremiam sem parar. Nessa altura minhas bolachas “Clube Social”, que tinha levado do Brasil (já que não consigo tomar os gels energéticos) tinham terminado. Tentei administrar a situação da melhor maneira possível. Tentei me acalmar e sentir o que estava realmente acontecendo. Percebi que eu estava com fome, muita fome. Daí não tive dúvida: pedi comida ao público: comida!!! Comida!! Eu pedia. As pessoas ficam surpresas, não entendem muito bem o que você queria, ou mesmo o que você estava dizendo, ao passar correndo. Só uns 500 m mais além, alguém me deu uma barra de power qualquer coisa. Abri o pacotinho e comi andando, bem devagar. Perdi uns 10 minutos nesta história, mas a tremedeira parou e pude, então retomar o ritmo anterior da comida. Até hoje, me congratulo comigo mesmo,por ter tido a presença de espírito e a calma para administrar aquela situação dificílima. E põe difícil nisso. Cheguei muito bem. Forte, sem uma dor, apenas com muito, muito frio. Completei a corrida em 5:57 horas e me orgulho disso. Conclusão: Completar uma maratona, seja em qualquer tempo, principalmente para nós atletas amadores, é um grande feito. Só nós maratonistas podemos avaliar o quanto tivemos de treinar, quanto tivemos de renunciar de comidas, programas, festas, aperitivos, para acordar cedo e treinar. Só nós sabemos das madrugadas, quando acordávamos sonolentos para correr, muitas vezes no escuro ou sob chuva, ou o sol intenso que tínhamos de pegar pelas 10 da manhã, quando ainda estávamos treinando, aquilo que tínhamos começado às 5:30 horas. Só nós podemos lembrar daqueles amigos e aliados que acordaram cedo para nos dar uma força nos treinos solitários e cansativos, mesmo sabendo que não iam correr a maratona! E também dos nossos treinadores, sempre ali por perto, com uma palavra de incentivo, de coragem e com empenho técnico deles para nos levar aonde levaram. Resumindo, é o que diz uma camiseta que eu comprei em Chicago: “26.2 miles: hell and back.” Ou seja: “42.196 m: ida e volta ao inferno”. Mas no fim, Graças ao bom Deus, tudo certo. Foi uma grande festa. Desde o preparo, a viagem, o dia da maratona, e o depois, nem se fala!!! É só alegria. Correram também e foram ótimos companheiros de viagem e de treinos: Marcio Bonilha Filho 3h27min. |